Tenho acompanhado o debate em
torno do projeto em tramitação
na Câmara Municipal de Campinas, interior de São Paulo, sobre
a obrigatoriedade de restaurantes da cidade oferecerem pratos com restrição
de sal. Nem me passou pela cabeça opinar sobre o complexo assunto
da formulação das leis na nossa sociedade, sobre onde cabe
ao legislador atuar ou não. Quem sou eu para tanto? Mas gostaria
de oferecer minha pequena contribuição para o tema. Como
cardiologista, acho que posso, ao menos, orientar os muitos que estão
se manifestando, colunistas ou leitores, sobre um detalhe que vem incomodando:
como os donos de restaurante saberão quantos são os portadores
de hipertensão que freqüentam suas casas e consomem seus pratos?
Pois bem, aqui vai minha contribuição: saibam os senhores
que cerca de 30% dos clientes que entram pela porta do estabelecimento
têm a pressão alta. Sim, senhores: um em cada 3 que passam
pelos pratos quentes ou saladas tem hipertensão.
Esses dados foram obtidos em estudos epidemiológicos realizados
no mundo todo. E não é coisa de países ricos: dados
do Brasil mostram quantidade semelhante de afetados.
A hipertensão arterial, ou pressão alta, é uma doença
cosmopolita e sem preconceitos: afeta pessoas de todos os credos e raças.
Tem, sim, algumas preferências, como os adultos e idosos. Mas está
aí, no meio de nós, silenciosamente (sim, porque na maioria
das vezes não provoca sintoma algum) bombardeando nossos cérebros,
rins e corações, causando derrames, infartos e insuficiência
renal. E qual a conseqüência? A principal causa de morte no
Brasil são as doenças vasculares, diretamente ligadas à
hipertensão. E a insuficiência renal? Haja diálise,
e depois temos que correr para credenciar mais centros para transplante,
sem falar na falta de doadores... Melhor seria evitar.
Da doença, embora nossa velha conhecida, sabe-se pouco, Em 95%
dos casos não há uma causa determinada, só alguns
fatores chamados de risco que, somados, vão levando,
em geral lentamente e de maneira contínua, para a elevação
da pressão. E o consumo de sal é (há muitos anos)
sabidamente um desses fatores. Tanto que a restrição do
consumo de sal, juntamente com outras orientações gerais,
é a primeira orientação dos a seus pacientes, antes
mesmo dos remédios. Isso está escrito nos livros e nas diretrizes
que norteiam o tratamento da doença.
A Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo está
atenta a essa questão. Procura, por meio de ações
em conjunto com outras Sociedades médicas, difundir o conhecimento
a respeito da doença. E está trabalhando para promover uma
campanha para a sua detecção e tratamento. Detecção?
Sim, porque das pessoas que têm a doença, só um terço
sabe! E, desses, só a metade está com os níveis de
pressão controlados. Medicina preventiva é isso: ações
para promover a saúde, e evitar gastos com o tratamento de complicações.
O Legislativo tem sido criticado por debater temas com menor importância.
O tema da Hipertensão Arterial é, ao contrário, urgente.
Pode ser que a forma sugerida pelo Vereador não seja a melhor.
Mas sabemos que a implementação de algumas atitudes que
trazem benefícios à saúde nem sempre é bem
recebida. Os desfibriladores, por exemplo, que salvam vidas, tiveram que
ser impostos por uma lei proposta pela Câmara.
Então, podemos combinar assim: pode ser que a lei seja difícil
de ser aplicada como está, que tenha que ser melhorada. Mas nós
não podemos fugir do debate e devemos procurar soluções
para combater as doenças que ceifam milhares de vidas todos os
anos na nossa cidade.
Dr. Márcio Jansen de Oliveira Figueiredo
Ex-Diretor de Regionais - SOCESP
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