Volume 19 -
Número 04 - Outubro / Novembro / Dezembro- 2009
Peculiaridades das Cardiopatias na Mulher
Este tema da presente edição da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo foi idealizado para tratar de assuntos cotidianos do cardiologista sob a óptica das particularidades de cada um dos gêneros, masculino e feminino.
É a terceira edição dessa publicação direcionada às afecções do coração feminino. A primeira edição, de 1996, e a segunda edição, de 2007, tiveram o comando editorial de Otávio C. E. Gebara, cabendo a mim a atual tarefa, contemplando, nesta empreitada, sobretudo as diferenças entre as afecções dos corações feminino e masculino.
A exclusão e a falta de reconhecimento da importância do sexo, em estudos científicos, estão frequentemente baseadas em crenças e fundamentos sustentados por pouca evidência. Vieses podem ser visíveis ou invisíveis e podem ocorrer no processo de pesquisa científica desde a seleção de uma espécie até a revisão de uma publicação em que não houve a análise de subgrupos. Felizmente a evidência está sendo construída para reduzir vieses e encorajar métodos inovadores que identifiquem a influência do sexo e do gênero1.
Em 2001, o Institute of Medicine (Washington, DC, Estados Unidos) publicou uma revisão considerada chave para a discussão da importância do sexo na pesquisa científica, com o título Exploring the biological contributions to human health. Does sex matter?2. Pincei duas frases nessa publicação que provocam reflexões: “há múltiplas diferenças nos mecanismos bioquímicos celulares básicos de homens e mulheres que podem afetar a saúde de um indivíduo” e “cada célula tem um sexo”. As influências hormonais femininas ao longo da vida não são estáticas e há variabilidade extremamente maior no organismo feminino que no masculino.
Homens e mulheres apresentam diferenças relativamente às doenças do sistema cardiovascular e essa é uma das áreas mais pesquisadas no território da medicina do gênero. Assumir que homens e mulheres têm similaridades do ponto de vista fisiológico fez com que as mulheres fossem tratadas como homens em muitas áreas da medicina, particularmente na cardiologia.
As diferenças de área corpórea e volume, bem como de metabolismo renal e hepático, implicam particularidades na metabolização de fármacos comumente utilizados. As mulheres têm artérias coronárias menores, mais disfunção diastólica, sintomas anginosos vagos e pior prognóstico após revascularização. Também têm ciclo cardíaco menor, maior tendência a arritmias e reagem diferentemente aos antiarrítmicos. Os ensaios que testaram a utilidade dos fármacos para proteção miocárdica em cirurgias não-cardíacas, em sua maioria, foram realizados em homens, e as mulheres não foram tratadas como um grupo em separado. Evidências recentes também sugerem que o vasoespasmo tem importante papel nas síndromes agudas e isso pode explicar, em parte, os pobres resultados de especificidade e sensibilidade dos exames de perfusão miocárdica. Mais importante, talvez, seja a diferença na agressividade e na propriedade com que os homens são tratados, comparativamente às mulheres com a mesma afecção.
Nesse sentido, procuramos, para esta edição da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, selecionar os temas cotidianos do cardiologista com a máxima abrangência e entregá-los aos profissionais identificados como especialistas no tema, que se empenharam na tarefa de buscar na literatura as diferenças entre as afecções cardíacas de homens e mulheres.
|