Volume 20 -
Número 02 - Abril / Maio / Junho- 2010
Biomarcadores em doenças cardiovasculares
O termo biomarcador define uma característica que pode ser objetivamente mensurada e avaliada como um indicador de um processo biológico normal, de processos patológicos ou mesmo de uma resposta a uma intervenção terapêutica, farmacológica ou não. Essa é a definição proposta pelo National Institutes of Health study group - Biomarker Definitions Working Group, em 2001. Em medicina, é um indicador de um estado particular de doença ou um estado particular de um organismo. No passado, referir-se a “biomarcadores” era primariamente avaliar o papel de indicadores fisiológicos como “pressão arterial” ou “frequência cardíaca”. No entanto, mais recentemente, o termo biomarcador tem sido utilizado de maneira mais abrangente, englobando marcadores bioquímicos, exames diagnósticos de imagem ou mesmo marcadores moleculares.
Quanto a sua classificação e de acordo com sua validação, os biomarcadores podem ser relacionados à história natural de uma doença e correlacionarem-se com índices clínicos conhecidos; ou podem capturar os efeitos de intervenção terapêutica conforme seu mecanismo de ação; ou ainda podem substituir desfechos clínicos baseados em evidências científicas epidemiológicas, terapêuticas, fisiopatológicas ou outras.
Cabe aqui definir alguns conceitos básicos epidemiológicos para auxiliar a compreensão dos termos que serão utilizados ao longo do tema “Biomarcadores em doenças cardiovasculares” nesta edição da Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo. Considera-se fator de risco quando este se associa a uma doença e apresenta relação causal. Já o marcador de risco associa-se com a doença (estatisticamente), mas não é necessariamente causador da doença, e pode ser uma medida do processo da própria doença.
A avaliação de um biomarcador permite, pela sua relação com os desfechos, estabelecer uma condição de desfecho substituto. Já a validação do biomarcador requer a comparação com outros testes ou técnicas disponíveis, com medidas de sensibilidade, especificidade e reprodutibilidade.
Dessa forma, muitos testes utilizados comumente na prática clínica são considerados biomarcadores. A maioria foi identificada com base em extrapolação de estudos de fisiologia ou de mecanismos biológicos. Com o avanço do conhecimento e da experiência clínica, alguns desses testes evoluíram para marcadores substitutos aos desfechos em ensaios clínicos, sendo aplicados como indicadores de mudanças tanto para melhor como para pior. Esses desfechos substitutos devem ser interpretados com uma visão crítica, pois não têm a relevância de um desfecho dito “duro”, como mortalidade, infarto do miocárdio ou acidente vascular encefálico.
No entanto, a identificação de biomarcadores como marcadores de desfechos substitutos alavancou a pesquisa nesse campo, a qual foi transformada em escala industrial, com novos potenciais biomarcadores sendo descobertos e padronizados, muitos ainda necessitando validação de sua aplicabilidade em estudos clínicos, não estando restritos apenas a sua capacidade de predição de risco, mas visando a novas estratégias terapêuticas, novas formas de manuseio clínico, técnicas moleculares, métodos sofisticados de imagem, e a perspectiva de terapias promissoras.
Na pesquisa de novos biomarcadores, muitos candidatos em potencial terão um futuro promissor, enquanto outros serão abandonados, quer por não aumentarem nossa precisão no diagnóstico, quer por custo excessivo ou por trazer riscos/malefícios aos pacientes. O processo de descoberta de novos biomarcadores é contínuo, dinâmico e a medicina translacional nos trará a oportunidade de rever o conhecimento integrado da complexa fisiologia e fisiopatologia humanas a cada novo estudo, com base nas hipóteses geradas.
O uso dos biomarcadores pressupõe que sejam cumpridos certos requisitos, como análise de dados de estudos prévios a seu desenvolvimento, estudos pré-clínicos e clínicos até a aprovação do uso desse marcador pelas agências regulatórias; finalmente, o marcador poderá ser utilizado na prática clínica para diagnóstico, prognóstico, monitoração da terapêutica ou como medida preditiva, apenas após todas as etapas anteriores terem sido cumpridas.
Esta edição conta com a colaboração de autores de várias subáreas da cardiologia que exploram com maestria os diferentes aspectos dos biomarcadores nas doenças cardiovasculares. No primeiro capítulo é explorado o papel da “Proteína C-reativa, fosfolipase A2, interleucinas e moléculas de adesão vascular” no desenvolvimento e complicações da doença aterosclerótica, e, destes, quais têm ou terão potencial utilidade na prática clínica. A contribuição das lipoproteínas modificadas e seu papel na ativação do sistema imune são contemplados no capítulo “Lipoproteína de baixa densidade modificada (mLDL) e anticorpos anti-mLDL na aterosclerose”. Os autores enfatizam propriedades fisiopatológicas da LDL minimamente modificada (mLDL) e o potencial dos autoanticorpos anti-LDL oxidada como biomarcadores na detecção, avaliação, diagnóstico e acompanhamento da aterosclerose. Novos biomarcadores da função endotelial, um grupo de marcadores do turnover dessas células é apresentado no capítulo “Células endoteliais circulantes, progenitoras endoteliais e micropartículas”, em que o papel das células progenitoras endoteliais, das células endoteliais circulantes e das micropartículas de diferentes populações celulares é apresentado em abrangente revisão de literatura, buscando melhor entendimento dos processos de lesão e reparo endoteliais em condições fisiológicas e fisiopatológicas. No capítulo “Peptídeos natriuréticos”, a importância desses peptídeos foi amplamente discutida como marcador de disfunção ventricular, e sua aplicabilidade clínica parece inquestionável. Por outro lado, a utilização das troponinas já foi incorporada ao arsenal de biomarcadores nas síndromes isquêmicas agudas e as dosagens de alta sensibilidade permitiram uma redefinição dos critérios de infarto agudo do miocárdio, além de suas outras aplicações. Esses aspectos são discutidos em profundidade no capítulo “Troponinas: biomarcador de lesão miocárdica”.
Finalmente, os capítulos “Marcadores bioquímicos de função endotelial e estresse oxidativo” e “Marcadores genéticos como biomarcadores: hipertrofia cardíaca como exemplo” são bons exemplos da evolução surpreendente dos biomarcadores no campo da medicina translacional, integrando o conhecimento da ciência básica a sua aplicação clínica na avaliação diagnóstica e prognóstica das doenças cardiovasculares.
Boa leitura! |